Viva intensamente a vida, sem o pavor da morte.



Por Teol. Leônidas Almeida

Como você encara a morte, olha-a de frente, de lado, ao longe, só nos outros, com pavor, medo, angústia, to nem ai. Pergunta feita ao filósofo Alain de Botton, em entrevista dada recentemente a revista Isto é, onde o mesmo fala sobre sua nova obra, "Religião para ateus"; se ele teria medo da morte? A Botton responde: Pânico! Eu não consigo suportar a ideia de que terei que morrer e que meus entes queridos também. Meu pavor real é morrer antes que meus filhos completem 30 anos.



Para termos uma boa qualidade de vida deveríamos estabelecer um diálogo com a morte, um diálogo produtivo e não autodestrutivo, que apazigua nossa mente e corpo imanente com a alma e o espírito transcendente na ótica da percepção do ser humano completo.

Inseridos numa sociedade consumista não temos tempo para compreender a pedagogia da morte, pois esta não e parte de nossas prioridades de consumo, não faz parte de nossa matriz existencial. Para Hennezel, “o mundo moderno não nos ensina morrer. Tudo é feito para esconder a morte, para incitar-nos a viver sem pensar nela”. O próprio Jesus Cristo declara a insanidade de um homem após uma vida toda de acúmulo de riquezas, que criou um império de ilusões na tentativa inútil de se imortalizar.  O pior é que este discurso fundamentado no materialismo consumista é vendido em várias igrejas cristãs contemporâneas. 
“Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado para quem será?” Lc 12:19.” 
Para o Ap. Paulo, acostumado a viajar, chegou a declarar explicitamente em uma de suas cartas antecipando a noticia que muito em breve correria pelas suas igrejas, a partir desta declaração é que poderemos compreender a dimensão pessoal que Paulo tinha da morte e em particular da sua própria morte, portanto trata-se aqui de sua experiência de vida sob o olhar da expectativa da sua morte.                  
“Quanto a mim, à hora já chegou de eu ser sacrificado, e já é tempo de deixar esta vida. Fiz o melhor que pude na corrida, cheguei até o fim, conservei a fé.”II Tem 4:6, 7 
          A morte para Paulo é simplesmente a finalização de uma carreira, a passagem de um estágio da vida para outra dimensão de vida que sucederá a esta. Aqui não se trata de um simples desejo suicida de morrer, mas ao contrário é o desejo de uma nova vida que brota a partir das experiências desta vida, que foi experimentada com plenitude e integridade. Já o suicida percebe a morte como a interrupção brusca de uma vida que não valeu à pena ter vivido.
 Portanto a expectativa da nova vida é vista segundo Paulo, como graduação da sua experiência presente, apesar das ambigüidades entre vitórias e derrotas, alegrias e tristezas, mas o somatório final conclui que valeu a pena ter vivido plenamente e ao mesmo tempo lhe remete a vida vindoura, que lhe será mais lucrativa e por ela anela profundamente. Em outro texto chega declarar que para ele o “viver é ganho e o morrer é lucro”.
 A partir da racionalidade humana a morte é a única certeza que temos desta vida, não preciso ser um profeta para te dizer que temos nosso encontro marcado, e por falar nisto, será que este encontro será com o bonito e gentil cavalheiro que assistimos nas telas de cinema ou aquele macabro espantalho dos filmes de terror.
Por outro lado, a partir da fé proposta por Paulo, que é também definida como “a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não vemos” (Hb 11:1), gera no fiel um estado de serenidade face ao terror que provoca em quem não se alimenta desta fé, quero ressaltar que tal descontrole pode até atingir a muitos religiosos domingueiros que vivem entre nós, pois muitos destes buscam na religião uma fuga do sofrimento e do pavor da morte. Note a fala de M L King Jr na noite anterior o seu assassinato, que transparece sua atitude de fé alimentada pela esperança de uma realidade além desta vida. 
“Como qualquer pessoa, desejo uma vida longa. A longevidade tem seu lugar. Mas não estou preocupado com isto agora. Quero apenas fazer a vontade de Deus. E ele me permitiu que eu subisse ao monte. Olhei lá de cima e pude contemplar a terra prometida. Pode ser que eu não entre lá com você, mas quero que você saiba esta noite que, como povo, nós entramos na terra prometida. É por isso que estou feliz esta noite. Não estou preocupado com nada. Não temo homem algum. Meus olhos viram a glória do Senhor que vem.”    
          Aqueles que pensam que a outra vida será aquela coisa chata de ficar sentado numa nuvenzinha sem fazer nada, sem alegria, sem nenhum tipo de prazer e experiência criativa, apenas quero te dizer, não detalhadamente, pois ainda não morri e espero ainda viver um bom tempo pela graça de Deus, mas quero ressaltar que Cristo, logo após sua ressurreição, revestido de um novo corpo transcendente compartilhou diversas sensações com seus discípulos, inclusive chegou a alimentar-se após uma pescaria abundante (Lc 24:40, 41).
 Pense nisto, um corpo de outra dimensão absorveu elementos de nossa dimensão, o atemporal absorveu o transitório e temporal, deixando um portal entre o transitório e o eterno através da experiência única da morte e ressurreição de uma vida para outra vida. Assim esta é a nossa esperança: a ressurreição e a vida eterna.
     “Então Jesus afirmou: - Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá;” (Jo 11:25)

"Quando se está só", uma das ultimas músicas feita por Sérgio Pimenta, quando já estava internado no hospital por um câncer terminal, sua letra mostra a força entre o medo, a solidão e a esperança renovada pela fé em Cristo.



Agora assista a reprodução da fala do Rev. M L Luther King Jr, citada neste texto.




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