A CORRUPÇÃO E O PAPEL DA IGREJA COMO AGENTE PROFÉTICO


Por Teol.  Leo Almeida



        O contexto histórico em que viveu o profeta Isaías é relevante, tendo em vista que tanto Israel como Judá passava por um período de prosperidade, porém estavam sendo ameaçados pelo império assírio, sendo que este império acabou por derrotar Israel, o qual estava moralmente corrompido, assim é neste contexto de crise moral e ética é que Isaías denuncia os corruptos, principalmente lideranças do poder executivo deste povo quando diz: "teus príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno, e corre atrás de presentes".Is 1.23a.

         Do ponto de vista teológico o tema sobre a corrupção esta intimamente ligado a própria vida da igreja, a teologia prática trata das instituições através das quais devem dialogar com a igreja, entre elas as instituições do estado, deste modo só assim as funções sociais da igreja são cumpridas integralmente. Para o Rev. Dietrich Bonhoeffer, um dos heróis da resistência nazista, afirmava que sua teologia colocava ao lado dos mais fracos com todas as consequências, pois uma ética teológica que exclui a ação política era algo inimaginável e chega afirmar aos seus pares e a igreja de sua época: "Fomos testemunhas mudas de atos maus, tornamo-nos rudes, aprendemos a arte de simular e a fala de duplo sentido, a experiência tornou-nos desconfiados em relação às pessoas e, muitas vezes, lhes ficamos devendo a verdade e a palavra livre; por causa dos conflitos insuportáveis tornamo-nos frágeis e talvez até cínicos : ainda temos serventia?

         Assim a corrupção é um sinal que algo de podre esta ocorrendo numa sociedade, como uma praga que sai corroendo todo esforço de uma nação em busca por melhores condições de vida para os mais pobres, principalmente quando esta é recorrente e aceita de forma dissimulada por diversos setores da sociedade civil. A igreja deveria ser um dos principais agentes proféticos contra corrupção, mobilizando o povo de Deus contra esta prática em marchas e protestos nas ruas ou engrossando as fileiras de protestos juntamente com outros movimentos da sociedade civil (NASRUAS.BR e DF, ADOTEUMDISTRITAL, MOVIMENTO CONTRA CORRUPÇÃO, etc).

         A corrupção compromete o bom desempenho dos governantes quanto a integridade, transparência e a moralidade em relação a gestão dos recursos públicos, em detrimento de boa parte da população que carece de serviços públicos de qualidade na saúde, segurança e educação, ou seja, funçoes básicas do estado. Então instala-se um ciclo vicioso que impossibilita a prosperidade para todos nesta sociedade, pois parte desta população estará impedida de desfrutar os ganhos auferidos da produtividade nacional, via arrecadação dos impostas, taxas e contribuições de melhoria, bem como do enriquecimento desigual devido a concentração de renda em determinados setores que se beneficiam do poder, principalmente os burocratas e os agentes políticos e econômicos que se promovem pelo desvio de recursos públicos, entende-se aqui recursos auferidos por todos contribuintes. Neste ponto cabe as lideranças clérigos e leigos exortar no sentido que o ser humano é capaz de responder as exigências de um proceder ético, pois em sentido amplo o ato imoral torna-se antiético e irresponsável, deste modo urge a necessária aplicaçao da lei.

         Um dos sintomas de uma sociedade corrupta é a inatividade política do legislativo, este sucumbi face a absorção da práticas não recomendadas pelos seus dirigentes: “Ai daqueles que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores" Is 10.1, pois neste caso o legislativo apenas serve de legitimação para os desvios do executivo e não de agente fiscalizador e promotor da justiça como deveria se comportar, ou seja, estar filtrando os atos do executivo e não apenas os recepcionando na sua agenda diária, tornando-se omisso quanto ao seu papel de elaborador de leis que beneficiem toda a sociedade. Portanto quando se diz que uma determinada CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) é abafada ou termina em pizza mostra as intimas relações de subserviência entre um poder e outro.

         Não seria possível este processo de corrupção caso não exista setores da sociedade produtiva que em proximidade ao poder tem o papel de corrompê-lo afim de dar-lhe sustentação política para auferir ganhos desiguais no sentido econômico, é a máxima daqueles que pregam e acreditam que o "fim justifica os meios", custe o que custar. Esta visão antiética da moralidade pública e sua omissão foi profundamente denunciadas por Jesus quando foi questionado o que deveria ser dado a César(Representando o Estado): "Então, dêem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus".Mt 22.21, refletindo a situação histórica do Império Romano, que se caracterizava, entre outras coisas, pelo desinteresse do indivíduo pelos problemas da existência social e política, situação esta que se repetiu em diversos períodos durante a história da igreja.  Assim  o profeta Ezequiel também denuncia quando diz:“No meio de ti aceitam-se subornos para se derramar sangue; recebes usura e lucros ilícitos, e usas de avareza com o teu próximo, oprimindo-o. E de mim te esqueceste, diz o Senhor Deus. Eu certamente baterei as mãos contra o lucro desonesto que ganhastes...” Ezequiel 22:12-13a

         Portanto a Igreja juntamente com seus líderes não devem se locupletarem com o poder, e sim estar dispostos a denunciá-lo e combatê-lo toda vez que denúncias de corrupção tomam a agenda política da nação. Infelizmente boa parte do povo de Deus parece estar vivendo já no céu, pois estão somente voltados para lindas músicas de louvor e adoração, que considero boas e edificantes, porém os eventos gospel devem também promover este processo de reflexão da realidade concreta, e não produzir uma realidade virtual alienada do aqui e agora, enfim renegando o papel político da igreja como promotora da justiça, da ética e da moralidade pública.

         Este tipo de passividade foi muito próprio da Igreja de Laodicéia tratada em Ap 3. Uma Igreja que se misturou ao poder e perdeu seu valor profético tornando-se uma Igreja morna, sendo esta condenada pelo Senhor:  "Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente. Melhor seria que você fosse frio ou quente! Assim, porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.  Você diz: Estou rico, adquiri riquezas e não preciso de nada. Não reconhece, porém, que é miserável, digno de compaixão, pobre, cego e que está nu". Ap 3.15-17.

         Assim devemos ficar alertas sobre as recentes denúncias de corrupção trazidas por uma cachoeira de revelações bombásticas que envolve políticos, membros do executivo e empresários e ainda o julgamento do chamado escândalo do mensalão pelo STF, que tem uma dinâmica muito semelhante. Caso contrário a igreja permanece a margem da história, ouvindo sempre as mesmas desculpas dos cascateiros  e cantando lindos hinos e canções em nossas comunidades de fé.

         Que Deus tenha misericórdia de nós.






Referências Bibliográficas:
Teologia Sistemática, Tillich, Paul 5 ed. Est Sinodal 2005
Dietrich Bonhoeffer Vida e pensamento, Milstein, Wermer. Ed Sinodal, 2006


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