Crises Afetivas II: Superação das crises por meio da tridimensionalidade do amor.


Por Leônidas Almeida





                Neste texto farei uma correlação entre a parábola das sementes (Mc 4.1-20) com o desenvolvimento da vida afetiva de um casal.

 A primeira cena ocorre quando o semeador lança a semente à beira do caminho, porém as forças espirituais contrárias retiram o desenvolvimento da semente no solo do coração e por isso a planta não se desenvolve. Muitos casais iniciam o relacionamento com júbilos de alegria, mas com o passar do tempo e com surgimento dos problemas decorrentes da vida a dois, sugam suas energias, suas rotinas se tornam vazias e sem encanto, parece haver um tipo de amnésia das experiências passadas, os “pássaros” surgem e lhe roubam os seus significados mais importantes, sua história de amor, as confidências, e como fuga de si mesmos não acreditam mais na possibilidade de caminharem juntos. Esta semente descuidada a beira do caminho, sem local ideal para germinação, poderá ocorrer quando pessoas entram no relacionamento com pensamentos obsessivos de históricos afetivos anteriores mal resolvidos, que acabam por afetar os sentimentos, dando aos “pássaros” o controle das emoções e da mente, que ao formarem seus ninhos tornam-se impossíveis de se desligar, imagens do passado povoam a mente, viabilizando o fortalecimento de oposições espirituais que agem de forma que desequilibram a vida do casal, resultando em frieza e morte do relacionamento.
 Outra forma de relacionamento são aquelas que até se desenvolvem por algum período, mas este relacionamento está em solo pedregoso, suas raízes não se desenvolveram, e quando vem o calor, provocado pelos desafios naturais da vida: questões relativas às diferenças de temperamento, diferenças profissionais, problemas financeiros e influências indevidas dos familiares na vida do casal, acabam por impedir o crescimento autônomo, gerando conflitos que o casal não consegue superá-los. O solo pedregoso impõe sobre o coração do casal pedras que impedem a conexão do fluxo de amor de um em relação ao outro, o desenvolvimento da afetividade fica comprometido e acaba por destruir o relacionamento ainda em formação.
     A terceira cena acontece quando a semente é lançada entre os espinhos. Em paralelo, é neste caso que produz maior nível de frustração pessoal, pois o casal conseguiu superar as primeiras fases, chegaram a ser referencial para muitas pessoas, suas raízes afetivas até se desenvolveram, conseguiram superar problemas trazidos para o casamento, alguns fizeram até aconselhamento pastoral e psicoterápico, porém com o decorrer do tempo foram separando-se de forma imperceptível, ou seja, ambições pessoais de cada um foram se tornando prioridades, deixaram que certas ilusões e sofismas, que são ideias aparentemente boas, às vezes por influência de “amigos”, leituras e envolvimento em atividades que demandam muito sacrifício por uma das partes, sem a devida compensação. A busca demasiada pelo ter ao invés do ser, a falta de reflexão mais profunda por parte do casal face aos acontecimentos, que muitas vezes acabam por estar desenvolvendo uma competição absurda com o outro. Outro fator é o descuido da vida espiritual, muito comum entre os homens que possuem todo o tempo do mundo para assistir as rodadas do campeonato, as peladinhas dos finais de semana, porém não sobra tempo para oração, reflexão nas Escrituras e idas às reuniões da Igreja a fim de obterem sustento espiritual para os dias de adversidade.
Lembro um casal amigo, muito ativos numa igreja, líderes de grupos familiares e ainda foram desafiados pela liderança para que também desenvolvessem seus negócios, que apesar de estarem bem, poderiam estar ainda melhor. Este casal ao longo deste período, praticamente não se viam mais, enquanto um trabalhava durante o dia o outro a noite e até aos finais de semana, quando perceberam o distanciamento um do outro, acabaram por entender o abismo que estavam criando, então resolveram em comum acordo deixar as atividades excessivas na igreja e do trabalho, mesmo a contra gosto da liderança daquela comunidade, mas no final de tudo conseguiram manter firmes seus propósitos de unidade matrimonial. Aqui faço um alerta para estas lideranças que estão apenas focados no rendimento financeiro de suas ovelhas.
     Conversando com este casal, percebi a grande diferença entre eles e diversos outros casais que não conseguem superar suas crises. Observei que mesmo envolvidos por um tipo de ambiente hostil a vida familiar, não perderam a capacidade de se comunicar um com o outro e isto foi fundamental para resolverem juntos seus problemas com toda maturidade e cuidado, isto é, estabelecer prioridades significativas para vida.
     O relacionamento deste casal estava muito bem definido em sua vida conjugal no sentido de terem desenvolvido raízes afetivas durante os anos. A compreensão a respeito da tridimensionalidade do amor, que produz comportamentos distintos em relação aos demais casais faziam parte de sua vida. Assim, o amor que tinham um pelo outro estavam articulados nas dimensões de Eros, Philia e Ágape.
Esta consciência sobre Eros, Philia e Ágape lhe permitiram desenvolver o relacionamento de forma madura evitando que os fatores externos, simbolizados no texto pelos “pássaros”, pudessem causar empobrecimento de sua relação, mesmo em circunstâncias contrárias.
     O desenvolvimento do amor Philia demonstrou que sua relação não estava restrita ao quarto, embora este não perdesse sua importância na plenitude do amor em eros, sendo que uma relação restrita a eros é limitada, pois neste tipo de paixão o prazer jamais será saciado, quando aflora a angústia pessoal não encontrará nele o equilíbrio necessário, tornando-se autofágico e mortífero. As dimensões de Philia lhe permitiram compartilhar sonhos, livros, blogs, momentos de reflexão, tempo para viajar, passear, renovar esperanças e sentidos, comemorar juntos as conquistas um do outro. Assim, superaram a competição pela afetividade mútua.
     A manifestação do ágape os mantinham unidos espiritualmente, pois esta dimensão nasce no coração de Deus, o amor incondicional, amor que se doa a si mesmo em função do outro. No ágape obtiveram forças e coragem para conversar sobre suas deficiências, pois neste tipo de amor não há lugar ao medo, nem anula o outro e muito menos tripudia com a rejeição. Na experiência do ágape, a comunicação ao invés de cobranças mútuas, passam a ser vistas sempre pela ótica do perdão pela e superação da culpa, não julga precipitadamente, as fraquezas do outro não são expostas publicamente e de forma exasperada pela rotulação manifestas em frases que geram feridas: “Você não faz nada certo”, “você é um fracasso”, “você não muda” e mesmo quando elas ocorrem não ficam guardadas nos armários escondidos da alma, local propício para o surgimento da amargura, pois são anuladas pelo perdão. Na consciência do ágape, da mesma forma que Deus manifestou seu amor por nós enviando seu próprio filho para nos resgatar e salvar, este sempre buscará formas de reconciliação e superação, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.
     A semente lançada na boa terra certamente dará muitos frutos, pois o solo foi enriquecido e fertilizado pela tridimensionalidade do amor, que abastece o corpo (Eros) a alma (Philia) e o espírito (Ágape), harmonizando e integralizando o relacionamento, o qual em busca de uma comunhão intima por meio de uma comunicação madura, poderá criar raízes profundas para o enfrentamento natural das adversidades da vida e contra toda forma de ataques do mundo exterior, quer sejam de ordem natural ou espiritual.
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TEXTO DE REFERÊNCIA (Mc 4.14-20)

 O semeador semeia a palavra. São estes os da beira do caminho, onde a palavra é semeada; e, enquanto a ouvem, logo vem Satanás e tira a palavra semeada neles.
 Semelhantemente, são estes os semeados em solo rochoso, os quais, ouvindo a palavra, logo a recebem com alegria.   Mas eles não têm raiz em si mesmos, sendo, antes, de pouca duração; em lhes chegando à angústia ou a perseguição por causa da palavra, logo se escandalizam.
 Os outros, os semeados entre os espinhos, são os que ouvem a palavra, mas os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições, concorrendo, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera. Os que foram semeados em boa terra são aqueles que ouvem a palavra e a recebem, frutificando a trinta, a sessenta e a cem por um.

Referências Bibliográficas:
HOCH, Lothar Carlos; HEIMANN, Thomas. Aconselhamento pastoral e espiritualidade. São Leopoldo: Sinodal, 2008.
WONDRACEK, K.; HERNANDEZ, C. Aprendendo a lidar com crises. São Leopoldo, Sinodal, 2004.

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